Professor emérito da Unicamp elogia o Livro Didático Público do Paraná
“Vejo a iniciativa do Livro Didático Público, desenvolvida pelo Governo do Paraná, como uma ação positiva em favor da melhoria da educação pública”. A declaração é do educador Dermeval Saviani, professor emérito da Universidade de Campinas (Unicamp), um dos mais importantes pensadores da educação do país e teórico da Pedagogia Histórico-Crítica. “O Estado não pode abdicar das suas responsabilidades e políticas públicas de educação são fundamentais. É importante que políticas como a do livro didático público sejam uma política de Estado, permanente e continuada”, diz.
O professor Saviani lembra que na prática o livro didático é o grande pedagogo no país. “Foi numa entrevista que fiz para a revista Leia Livros, em 1984, que chamei os livros didáticos de os grandes padagogos, pois são eles que acabam pautando a ação dos professores dentro da sala de aula. O acesso ao conhecimento deve ser sistematizado e graduado e o livro didático é fundamental nesse processo”, afirma Saviani. “Mas só o livro não adianta. É preciso políticas e ações que melhorem a formação dos professores e melhorem suas condições de trabalho”, completa.
Por isso, Saviani elogia a política do Livro Didático Público da Secretaria de Educação do Paraná, que só neste ano distribuiu 5,4 milhões de livros, em 12 disciplinas, para mais de 450 mil alunos da rede pública do ensino médio. “A impressão que eu tive é positiva. A iniciativa é séria e merece ter continuidade”, afirma o professor Saviani. Para ele, o livro didático é importante porque os conteúdos trabalhados em sala de aula são mediados por ele. “Mas uma formação sólida dos professores também é fundamental”, observa.
“O acesso ao conhecimento tem que ser sistematizado. O livro didático permite ao professor definir o que vai ser objeto de estudo e como o conteúdo vai ser trabalhado”, explica Saviani. Ele critica os programas de livros didáticos desenvolvidos nos últimos anos no país. “Falta uma orientação clara e de longo prazo. O Programa Nacional do Livro Didático não é o ideal, mas é um avanço. Acredito que se pode melhorar ainda mais o programa. Como eu já disse, é preciso que a questão seja considerada uma política de Estado e não só de governo”.
“Da forma como PNLD funciona as editoras acabam sendo, de alguma forma, um tipo de concessionária de serviço público. É uma questão pública e acho que o governo poderia exercer seu papel ao também definir os critérios para o desenvolvimento dos conteúdos dos livros didáticos, que ainda têm mais características como livros de mercado e não como instrumento de política pública”, diz Saviani. “A definição dos conteúdos dos livros didáticos é fundamental”.
Saviani comenta que a atual polêmica sobre a ideologização dos livros didáticos que compõem a lista do MEC não passa de uma reação com fundo comercial, provocada pelos apologistas do livro didático de mercado. “Nos anos 70 e 80 nós denunciávamos a ideologização dos livros didáticos, porque os conteúdos tinham por objetivo perpetuar a ideologia dominante. No caso, a que dava sustentação para a Ditadura. Os conteúdos eram permeados de preconceitos e de idéias que reforçavam a ideologia dominante. A dita neutralidade só era um argumento para a defesa dos interesses dominantes”.
“Agora a crítica contra a ideologização é inversa. A acusação é que a ideologia nos livros didáticos é a ideologia da subversão. Eu vejo que as reações hoje são na defesa da ordem burguesa, do sistema capitalista e das teses dos neoconservadores, dos ditos pós-modernos e neoliberais. São estes que agora se sentem ameaçados porque há mais democracia, diversidade e pluralidade nos conteúdos dos atuais livros didáticos”, comenta Saviani. “É uma crítica que atende aos interesses comerciais das grandes editoras. Agora não funciona o discurso da neutralidade e sim a acusação simplista de ideologização, quando na verdade temos outra situação, onde há liberdade e democracia. Isso assusta os conservadores”, diz.
Graduado em filosofia pela PUC-SP em 1966, Saviani é doutor em filosofia da educação (PUC-SP, 1971) e livre-docente em história da Educação na Unicamp desde 1986, tendo realizado estágio sênior (pós-doutorado) nas universidades italianas de Pádua, Bolonha, Ferrara e Florença, em 1994 a 1995. De 1967 a 1970, lecionou filosofia, história, história da arte e história e filosofia da educação nos cursos colegial e normal. Desde 1967, é professor de graduação e pós-graduação no ensino superior. Autor de 15 livros, 33 capítulos de livros, 38 prefácios de livros e 130 artigos em revistas nacionais e internacionais, orientou 37 dissertações de mestrado e 47 teses de doutorado, concluindo 17 projetos de pesquisa. Foi membro do Conselho Estadual de Educação de São Paulo, coordenador do Comitê de Educação do CNPq, coordenador de pós-graduação na UFSCar, na PUC-SP e na Unicamp e diretor-associado da Faculdade de Educação (FE) da Unicamp. Foi coordenador-geral do Grupo Nacional de Estudos e Pesquisas História, Sociedade e Educação no Brasil e professor titular colaborador da USP. Foi condecorado com a medalha do mérito educacional do Ministério da Educação.
A pedagogia Histórico-Crítica é tributária da concepção dialética, especificamente na versão do materialismo histórico, tendo fortes afinidades, no que se refere às suas bases psicológicas, com a psicologia histórico-cultural desenvolvida pela “Escola de Vigotski”. A educação é entendida como o ato de produzir, direta e intencionalmente, em cada indivíduo singular, a humanidade que é produzida histórica e coletivamente pelo conjunto dos homens. Em outros termos, isso significa que a educação é entendida como mediação no seio da prática social global. A prática social se põe, portanto, como o ponto de partida e o ponto de chegada da prática educativa. Daí decorre um método pedagógico que parte da prática social onde professor e aluno se encontram igualmente inseridos, ocupando, porém, posições distintas, condição para que travem uma relação fecunda na compreensão e encaminhamento da solução dos problemas postos pela prática social, cabendo aos momentos intermediários do método identificar as questões suscitadas pela prática social (problematização), dispor os instrumentos teóricos e práticos para a sua compreensão e solução (instrumentação) e viabilizar sua incorporação como elementos integrantes da própria vida dos alunos (catarse).
Fonte: Agência Estadual de Notícias

O educador Dermeval Saviani, que teorizou sobre a Pedagogia Histórico-Crítica, diz que o Estado não pode abdicar das suas responsabilidades com relação à educação e que políticas públicas como a do livro didático público do Paraná são positivas. Foto:SEED


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